E.COLI, A BACTÉRIA - RESULTADO DA REUNIÃO "COM CARÁCTER DE URGÊNCIA"

Confesso que depois dos dois primeiros comunicados da Câmara Municipal de Sesimbra, do vídeo do Presidente da Autarquia e do comunicado da SIMARSUL, estava à espera que, da reunião “com carácter de urgência” realizada entre a CMS, a SIMARSUL, a APSS e a Docapesca, saísse uma qualquer novidade que esclarecesse de onde raio veio a E.coli que foi parar à praia do Ouro (mas apenas entre o pontão da praia e a vedação do estaleiro naval). 

E estranhamente, há quem consiga ler no Comunicado da Câmara Municipal de Sesimbra (emitido na segunda-feira, 18 de Agosto, depois da reunião “com carácter de urgência”) conclusões que não constam no Comunicado. 

Vamos por partes. 

Qual era o objectivo da reunião? 

  • Esclarecer a situação.
E o que é que era para ser esclarecido? 

  • Se tinham sido as descargas da ETAR as responsáveis pela E.coli que provocou a interdição da praia do Ouro (em especial depois do comunicado da SIMARSUL avançar com a informação de que era "pouco verosímil qualquer relação direta entre" as descargas e a presença da E-Coli na praia do Ouro). 
E o que diz este terceiro comunicado da Câmara Municipal de Sesimbra? 

O que toda a gente já sabia (através da leitura do comunicado emitido pela SIMARSUL na sexta feira, dia 15 de Agosto): ocorreram "afluências indevidas à rede de drenagem municipal, contendo elevadas quantidades de restos de peixe e escamas” que originaram “duas anomalias pontuais de funcionamento” que “foram prontamente resolvidas." As quatro entidades que participaram na reunião reconfirmaram apenas o que todos sabíamos não dizendo uma palavra sobre a E-coli e a interdição da praia do Ouro (apenas entre o pontão da praia e a vedação do estaleiro naval). É apenas isto que o comunicado reconfirma. 

Explicando de outra maneira: O comunicado apenas reafirma que existiram "descargas irregulares” na “rede de drenagem municipal” que provocaram "anomalias pontuais de funcionamento" da ETAR. E aponta duas iniciativas para que possam ser evitadas no futuro, outras “descargas irregulares” que ponham em causa o funcionamento da ETAR: 

  • A realização de uma "vistoria urgente"; 
  • A realização do "mapeamento da infraestrutura do sistema de águas residuais e pluviais internas do Porto de Sesimbra". 
O quê? Então mas só agora é que vão realizar o "mapeamento da “rede de drenagem municipal” existente dentro do Porto de Sesimbra? Então mas esse mapeamento não deveria existir aos anos?, há décadas? Lá diz o ditado: «mais vale tarde que nunca». 

Então e a E.coli? Quem é que trouxe a E.coli para a praia? 

A questão maior que deveria ter sido esclarecida, não foi: a interdição da praia do Ouro (apenas entre o pontão da praia e a vedação do estaleiro naval) resultou ou não, das descargas da ETAR? 

Confesso mais uma vez a minha ignorância sobre descargas da ETAR e de E.coli lançada ao oceano. Mas permitam-me: 

  • A descarga da ETAR é realizada através de um emissário submarino, com 500 metros de comprimento, dirigido para sul, existindo uma distância, entre a abertura (o local de descarga) e a linha de costa da praia de Sesimbra, de cerca de 1,5 km. 
  • Numa pesquisa rápida na net, a sobrevivência da E.coli depende das variações ambientais (por exemplo: a radiação solar e a temperatura da água) sendo que a chegada à praia depende das marés e do vento. 
  • No dia 7 de Agosto (véspera da segunda descarga da ETAR), a Câmara Municipal de Sesimbra e a Protecção Civil de Sesimbra emitem um "Aviso" relativamente ao perigo de incêndio rural. Nesse "Aviso" consta a seguinte informação: 
    • "Vento (…) de leste/sueste (…) durante a madrugada/manhã, e do quadrante oeste durante a tarde". 
    • Temperatura acima dos 35º” 
Fantasiemos a experiência «E.coliana»: 

Depois de passar por dentro da infraestrutura da ETAR, ser lançada numa espécie de jacto, para as profundezas do mar, no sentido sul, a uma distância de 1,5 km da costa, a E.coli está finalmente livre e pronta a conquistar o oceano! 

Admitindo que a descarga ocorreu durante a madrugada, a E.coli apanha ventos de leste/sueste que a empurram naturalmente para os lados do Cabo Espichel. Mas, como a E.coli é apreciadora de poesia, grita: "não sei por onde vou, não sei para onde vou, sei que não vou por aí"! 

E numa atitude de rebeldia e teimosia, desata a nadar contra a corrente, com todas as forças que tem. O vento de leste/sueste que à tarde vira para oeste, empurram-na para a frente e para trás, numa dança extenuante que quase a fazem desistir. E o calor abrasador acima dos 35º que a atinge, começa a fazer estragos: já sente o escaldão nas costas, nos braços, na cabeça. E a água está tão quente que não a refresca. Pára. Respira fundo. Mergulha na esperança de encontrar águas mais frias… mas não consegue. Está desesperada. Mas a persistência e a resiliência fazem-na continuar,

Nova golfada de ventos de leste/sueste e depois de oeste entontecem-na. Está cada vez mais longe da costa. Com forças que lhe veem não sabe de onde, continua a nadar freneticamente para norte, contra a corrente que teima em puxá-la para trás. Já consegue ver a ETAR e os tetrápodes do molhe do porto de abrigo. 


Continua a nadar, num último sopro de força. Consegue passar o farol do molhe. Estica o pescoço, queimado pelo sol, vendo a praia que se estende para nascente, até ao caneiro. Mas não é para lá que vai. Depois de tão grandiosa epopeia, seria um final demasiadamente fácil. Decide por isso, numa manobra extremamente complicada, desviar-se do pontão da praia para a esquerda (e da plataforma de saltos para a água) e entra, finalmente, na pequena baía calma, quase sem ondas e sem vento, compreendida entre o pontão da praia e a vedação do estaleiro naval. 

Depois de tão grandiosa aventura que demorou 7 dias! a realizar, tendo quase morrido, pela força do sol e do vento, alcança exausta, o descanso merecido. 

Perdoem-me o entusiasmo. 

Parece-me  "pouco verosímil" que tenham sido as descargas da ETAR a provocar a interdição da praia do Ouro (apenas entre o pontão da praia e a vedação do estaleiro naval). Sendo que este terceiro comunicado da Câmara é completamente omisso sobre a E.coli e a interdição da praia. 

Quem é que trouxe a E.coli para a praia? Ninguém saberá. 

O que é perigoso. Porque se ninguém conseguir tentar apurar de onde, como e quando chegou a E.coli à praia do Ouro, será muito difícil evitar outras interdições de praia se por acaso se vier a verificar a presença de uma outra E.coli. Especialmente se essa interdição não coincidir (como esta) com duas descargas da ETAR. 

Porque uma coisa foram as descargas da ETAR depois de uma anomalia, atempadamente resolvida, após a “ocorrência de afluências indevidas”. 

Outra coisa foi a interdição da praia do Ouro (apenas entre o pontão da praia e a vedação do estaleiro naval) face à presença da E.coli. 

Coisa bem diferente será provar que as descargas da ETAR são responsáveis pela E.coli que provocou a interdição da praia. 

Talvez numa nova reunião. Essa sim, de “carácter urgente”.


LINKS para:

1º post: E.COLI, A BACTÉRIA.

3º. post: E.COLI, A BACTÉRIA – ESCLARECIMENTO NA REUNIÃO DE CÂMARA

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