HÁ COISAS QUE NOS DÃO UMA DOR NA ALMA
As imagens valem mais do que mil palavras.
Oito jacarandás com dezenas de anos, viçosos e completamente sãos, sofreram este corte, esta poda selvática, conhecida por "poda de rolagem" e proibida desde Agosto de 2021 pela Lei 59/2021 de 18 de Agosto (link) seguindo-se, digo eu, talvez amanhã o abate das mesmas.
Não são visíveis quaisquer danos que as árvores estivessem a causar no espaço público (passeios e lugares de estacionamento) ou, no muro de vedação do condomínio existente. Mas a verdade é que, se fosse algum desses casos, a última solução seria cortar selváticamente as árvores e abatê-las. A solução passaria por redimensionar as caldeiras e remover pavimentos, respeitando os troncos e as raízes ou, reformular o muro de vedação do condomínio, garantindo a sua privacidade e mantendo as árvores existentes.
É de facto um mandato histórico. Direi mais: são de facto dois mandatos históricos porque, antes de 2017, nada disto seria possível de acontecer.
Ontem a Autarquia noticiou o estado de deterioração das árvores existentes no Largo 1º de Dezembro e na Rua Eça de Queiroz, referindo que as mesmas iriam ser substituídas por novas espécies "mais adequadas a estes locais" uma vez que as mesmas terão sido analisadas, "do ponto de vista do estado fitossanitário e risco de rotura". Sobre os oito jacarandás, nem uma palavra.
No relatório fitossanitário que a Autarquia divulgou publicamente (outubro de 2023) aquando do abate de árvores no Largo do Grémio, lê-se:
"Os exemplares avaliados, que se encontram em caldeira, foram sujeitos a podas de talhadia de cabeça ou talhadia alta (“podas-de-rolagem”), exibindo podridão nas “cabeças-de-rolagem” e rebentação epicórmica abundante na zona de inserção das pernadas/bifurcação do tronco. (...) cumpre-nos relembrar que no âmbito do Regime Jurídico de Gestão do Arvoredo Urbano (Lei 59/2021 de 18 de agosto, é proibido “proceder a podas de talhadia de cabeça ou rolagem” (Artº 24º) e que “O coberto arbóreo e a capacidade de prestação de serviços ecológicos e climáticos pelo arvoredo urbano devem ser incrementados” (Artº 19º)".
E sobre uma das árvores referia: "Intervenções aconselhadas: Corte dos ramos secos. Poda de seleção dos ramos epicórmicos de modo a diminuir a carga nas “cabeças-de-rolagem”."
Onde anda a análise "do ponto de vista do estado fitossanitário e risco de rotura "dos oito jacarandás que desapareceram? De onde surgem estas ideias peregrinas desde 2017?
A Lei 59/2021 de 18 de Agosto diz ainda que, no prazo de um ano, as Autarquias teriam de elaborar e aprovar o Regulamento Municipal da Gestão do Arvoredo, sendo que no mesmo deveriam constar "regras técnicas e operacionais especificas para a preservação, conservação e fomento do arvoredo urbano". E diz também que, no prazo de dois anos, as Autarquias teriam de elaborar um inventário completo do arvoredo urbano existente. Alguém conhece este regulamento e este inventário do arvoredo urbano existente em Sesimbra?
É de facto um mandato histórico. Com as "podas de rolagem" a acontecer um pouco por todo o lado (Largo 1º de Dezembro, Rua Eça de Queiroz, Jardim, Avenida da Liberdade, Largo do Grémio...), a porta está aberta para que todas as árvores que morrem lentamente ao sabor das "podas de rolagem" sejam substituídas por outras espécies "mais adequadas a estes locais". Valha-nos Deus.
No momento em que o mundo inteiro preserva as árvores com décadas, portadoras de copas majestosas que contribuem para o bem estar do ser humano, nomeadamente em zonas urbanas consolidadas, a Autarquia efectua "podas de rolagem" e, quando essa poda, repetida ano após ano, resulta em podridão da própria árvore, seguem-se os abates e as substituições por outras espécies "mais adequadas a estes locais" que, pela dimensão que não têm, demorarão anos! a produzir uma qualquer sombra resultado das suas copas majestosas (veja-se o exemplo na zona de estacionamento do Parque Augusto Pólvora.
Há coisas que nos dão uma dor na alma. É de facto um mandato histórico.
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