CDU DE SESIMBRA NÃO APROVA MOÇÃO PELA CONDENAÇÃO DO ATAQUE MILITAR DA RÚSSIA À UCRÂNIA

Nem sei que diga. E tanto que tenho a dizer sobre o que foi dito na primeira sessão da reunião da Assembleia Municipal da passada sexta-feira, dia 25 de Fevereiro de 2022 (e à qual provavelmente irei dedicar alguns textos, num outro post, que não este).

A bancada municipal do PS apresentou uma Moção para que a Assembleia Municipal deliberasse e cito (apenas o ponto 1):

Condenar fortemente o ataque militar da Rússia contra a Ucrânia e apelar à retirada imediata das forças militares russas da Ucrânia.

E porque a Moção foi apresentada no início da reunião da Assembleia Municipal (coisa que como todos sabemos não é inédita nem impeditiva de ser apreciada, discutida e deliberada), a bancada municipal da CDU não teve tempo para analisar o conteúdo da Moção, tendo solicitado uma interrupção dos trabalhos, durante 5 minutos (e que foi concedido), para que pudesse analisar a mesma. 

No entanto, importa referir que todas as bancadas municipais conheceram o teor da Moção ao mesmo tempo e que, a bancada municipal do PSD, não só analisou o teor da mesma como sugeriu a introdução de duas situações complementares: uma, referindo a solidariedade para com o povo russo que é contra a guerra e outra, referindo que da Moção deveria ser dado conhecimento (também), à embaixada russa em Portugal. Sugestões que foram aceites e inseridas no texto final da Moção presentada pela bancada municipal do PS.

Volvidos os 5 minutos de interrupção, os trabalhos foram retomados com a intervenção da bancada da CDU. Não vou sequer transcrever o que foi dito (e que pode ser ouvido na gravação da sessão). Vou dizer apenas que, com argumentos do passado e parecendo ignorar a realidade do presente: uma guerra na Europa desencadeada pelo ataque russo à Ucrânia, a CDU não consegue, por coerência política, votar favoravelmente a Moção apresentada que visava apenas e cito novamente: “Condenar fortemente o ataque militar da Rússia contra a Ucrânia e apelar à retirada imediata das forças militares russas da Ucrânia.

E utilizo a expressão “coerência política” porque a palavra “coerência” foi evocada para justificar o injustificável: não aprovar a Moção que visava condenar o ataque militar da Rússia à Ucrânia. 

Falemos então de “coerência política” na nossa terra:

1ª Decisão/posição tomada em nome da “coerência política” (depois dos resultados eleitorais autárquicos que retirou maiorias absolutas à CDU e em que Jerónimo de Sousa afirmou, e cito “a ordem é para recusar quaisquer acordos pós-eleitorais”):

  • A CDU estabelece com o PS um acordo pós-eleitoral de “gestão partilhada” (que afinal é apenas uma “gestão participada”).

2ª Decisão/posição tomada em nome da “coerência política” (depois dos resultados eleitorais autárquicos e legislativos alcançados pelo Chega e em que Jerónimo de Sousa afirmou que não será com os votos do PCP que o Chega conseguirá eleger um vice-presidente para a Assembleia da República (no tal “cordão sanitário” que, respeitando a democracia e o voto popular que elege elementos do Chega, visa proteger os valores democráticos de ideologias anti-democráticas):

  • A CDU estabelece com o candidato eleito pelo Chega (agora independente) um acordo de “gestão partilhada” (que afinal é apenas uma “gestão participada”).

Curiosamente ficámos a saber (na inqualificável reunião de Câmara de dia 9 de Fevereiro de 2022) que as decisões/posições tomadas não têm nada que ver com a CDU; foram decisões tomadas contra a vontade do partido (a atribuição de pelouros ao PS e ao candidato eleito pelo Chega – agora independente), dado que a competência de atribuir ou não pelouros, pertence apenas ao Presidente (que foi eleito pelo CDU).

Voltemos então ao ocorrido na primeira sessão da reunião da Assembleia Municipal da passada sexta-feira, dia 25 de Fevereiro de 2022. Por coerência, a bancada da CDU, não aprovou a Moção. Porque, e conforme Ricardo Araújo Pereira ironizou, a guerra é culpa dos Estados Unidos e da Nato e da Europa e não da Rússia (com ameaças recentes relativas ao armamento nuclear) que invade militarmente a Ucrânia, um país europeu livre e independente. 

Para a memória futura importa registar que a Moção foi aprovada por todos, excepto pela CDU. Votaram favoravelmente o PS, o PSD, o BE, o MSU e, o Chega. 

Não vou identificar nominalmente cada um dos deputados que integram as bancadas municipais. Mas não posso deixar de referir que, dos 8 deputados e 2 presidentes de Junta que integram a bancada municipal da CDU, 7 são independentes. E numa questão como esta, em que, nas palavras do Presidente da Câmara, todos sem excepção são contra a guerra (declaração que, em nome da coerência, é difícil de entender), a CDU parece ter imposto disciplina de voto à sua bancada, quando a maior parte dos seus elementos é, independente. 

Por uma questão de coerência, porque é que a CDU de Sesimbra não seguiu o exemplo da coerência (que não teve, face àquelas que foram as orientações de Jerónimo de Sousa) que utilizou para atribuir pelouros ao PS e ao candidato eleito pelo Chega (agora independente) e para definir uma “gestão partilhada” (que afinal é apenas uma “gestão participada”)?, e votou em consciência e livremente uma Moção que visava apenas, condenar o ataque militar da Rússia à Ucrânia?

É pena. 

Para o futuro, não fica a posição da CDU de Sesimbra. Para o futuro, fica a posição dos eleitos pela CDU de Sesimbra. Nomeadamente e em especial de todos os independentes que, ao lado de uma retórica política e ideológica (à qual não pertencem), que abomina a política americana, a Europa e a NATO, votam cabisbaixos perante a condenação de uma ofensiva militar que todos pensámos que jamais ocorreria em pleno século XXI.

Importa referir uma declaração de uma cidadã russa em Portugal, explicando algumas das iniciativas russas, perante os russos, nomeadamente ao nível da educação e disciplinas obrigatórias que integram o ensino secundário: os jovens russos, no 12º. Ano, têm uma disciplina que os ensina a manusear e a utilizar armas. A Rússia ensina aos seus jovens adultos como tirar vidas e não, como salvá-las. Não imagino este cenário em nenhum país europeu, livre e democrático. Pensemos todos nisto. 

E com toda a certeza teremos muito que aprender. Especialmente todos os que nascemos, crescemos e vivemos num mundo em que a guerra na Europa estava apenas nos livros de história.

Termino com a transcrição parcial daquela que foi a declaração do deputado eleito pelo BE (independente), quando questionado pelo sentido do seu voto ir contra o que defende o partido pelo qual foi eleito, sendo até avançado que o partido lhe deveria retirar a confiança política:

O facto de ser escolhido ou ter sido convidado para representar aqui o Bloco de Esquerda, não quer dizer que eu tenha de concordar com tudo; mesmo que fosse militante não tinha que concordar. E aqui eu estou a expor uma posição que é minha, (…), porque eu estou aqui em consciência com a defesa daquilo que eu acho que é correcto.

Talvez seja útil para futuras votações de todos aqueles que, eleitos por um partido mas, independentes, tenham a consciência de que podem e devem defender, em liberdade, aquilo que acham que é o correcto, nomeadamente e no caso, a condenação do ataque militar da Rússia à Ucrânia.




FONTE DA IMAGEM: nit.pt 


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