COLABORADORES DO JORNAL «RAIO DE LUZ» EXCOMUNGADOS
Confesso que a mim, já há muito tempo, nada me espanta em Sesimbra. E confesso que, integrar a lista dos colaboradores excomungados, é para mim um orgulho. Nunca segui a corrente. Nunca fui da “assembleia do sim senhor”. Nunca obedeci a “disciplinas de voto”. Não presto vassalagem. Não engraxo ninguém. Não faço fretes. Nem tão pouco moldo o meu pensamento às opiniões de outros. A isso chamo: carácter.
Fui, sou e sempre serei, dissidente. Não acredito em frases feitas, nos discursos estudados, nas doutrinas impostas. Acredito na democracia, na liberdade e na pluralidade. E claro, naquela que é hoje para mim, a maior falha deste início de século com apenas 26 anos: a educação. A falta de educação reina a todos os níveis: institucionais, profissionais, sociais, inter-geracionais, inter-relacionais. A falta de educação parece ser, nos dias de hoje, um predicado e não, um valor insubstituível e imensurável. Numa análise mais detalhada sobre esta realidade, na maioria dos casos, a falta de educação está associada à falta de delicadeza, de atenção, de cuidado. Enfim, é o retrato deste início de século.
Permitam-me a partilha de alguns acontecimentos:
- Naquele dia em que nos despedimos do Director do jornal «Raio de Luz», do amigo António Marques, ao som de um violino que chorava “somewhere over the rainbow”, troquei algumas palavras com a actual directora do jornal, apresentando-me (porque não nos conhecíamos nem nos conhecemos) e transmitindo-lhe, na sua pessoa, os meus sentimentos a toda a ‘família’ do Centro Raio de Luz. Obtive como resposta a informação que teríamos de conversar, mas mais para a frente, não agora. O que compreendi naturalmente, respondendo que estaria disponível para essa conversa quando fosse oportuno. Respondeu que depois entraria em contacto mas, “mais para a frente, mais para a frente” (a expressão ‘mais para a frente’ dominou a pequena conversa).
- No passado dia 13 de Maio (há 8 dias) passei pelas instalações do Raio de Luz com a intenção de adquirir alguns jornais antigos e, trazer um conjunto de revistas que o Engenheiro António Marques (enquanto meu amigo e não, enquanto Director do jornal «Raio de Luz») me ofereceu. Depois de subir as escadas até ao piso do seu gabinete, o ambiente era desolador, frio, escuro, silencioso. Como se o tempo estivesse parado desde que tudo ficou mais vazio. Foi uma das colaboradoras do Raio de Luz que surgiu vinda do Centro de Dia. Disse-lhe ao que ia. Escreveu num papelinho os jornais antigos que eu quereria adquirir e, lembrava-se perfeitamente das revistas que eram para mim mas, naquela confusão toda, não sabia onde estavam. Transmitiu-me que estava tudo parado, que tinha sido tudo fechado e que não podiam fazer nada, porque só na véspera tinham recebido a certidão de óbito e que tinham de alterar todos os registos e só depois, voltariam a funcionar. Despediu-se dizendo-me que quando tivesse os jornais e as revistas entraria em contacto comigo.
- Hoje, ao aceder à minha página das redes sociais, vi as publicações de Pedro Martins e de Risoleta Conceição Pinto Pedro sobre a última edição do jornal «Raio de Luz»; a primeira depois da morte do Engenheiro António Marques.
Mas há nesta partilha (que fiz acima) um outro atributo associado à falta de educação: a mentira. E essa, mina a confiança e o respeito pelo outro. Então estava tudo parado, tudo fechado, não podiam fazer nada, porque só na véspera tinham recebido a certidão de óbito e que tinham de alterar todos os registos e só depois, voltariam a funcionar? Mas ao mesmo tempo, estavam as máquinas a imprimir o jornal de Maio? Nem tenho palavras.
Conforme referi AQUI, nas muitas horas de conversas e partilhas com o amigo António Marques (educado e verdadeiro; o que diria, ou o que dirá, se nos estiver a ver?) nomeadamente sobre o Raio de Luz, a política e a politiquice, tinha como certeza que o jornal acabaria quando o seu Director partisse. Nunca pensei sequer, que voltaria a existir o jornal. Para mim não existiria ninguém capaz de manter o jornal livre e plural. O jornal «Raio de Luz» afirma (até quando?), em dois dos seis pontos do estatuto editorial:
“(…)
4. Pluralista no campo religioso e no político, “Raio de Luz” aceita todas as correntes de opinião quando não ponham em risco a fé, o respeito pela pessoa humana e o reconhecimento dos seus inalienáveis direitos.
5. Não está ao serviço de qualquer partido político, embora defenda como dever, a participação politica.
(…)”
Da minha parte (e tomo a liberdade de incluir os restantes colaboradores excomungados), nos artigos de opinião que escrevi para o jornal, não pus “em risco a fé, o respeito pela pessoa humana e o reconhecimento dos seus inalienáveis direitos”. E não estou nem nunca estive, “ao serviço de qualquer partido político”.
Aos que tal como eu, foram excomungados pela nova direcção do jornal «Raio de Luz», e que reagiram, não com surpresa mas, com indignação, apenas uma palavra: somos pessoas livres e educadas (coisa rara). Não precisamos das páginas de um jornal (e que no meu caso, escrevia apenas e só por amizade e a convite do seu Director), ou de uma cadeira de Director, ou de um cartão partidário, ou de prestar vassalagem, ou de engraxar alguém, para continuarmos a ser quem sempre fomos, somos e seremos.
E permitam-me terminar com a mestria das palavras de Maria Teresa Horta:
“Não me exijam / que diga / o que não digo
Não queiram / que escreva / o meu avesso
Não ordenem / que eu aceite / o que recuso
Não esperem / que me cale / e obedeça”
FONTE DA IMAGEM: theuniplanet.com








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