Há coisas que são previsíveis. A morte, por exemplo. Será a grande certeza da vida. E dentro dessa previsibilidade, é imprevisível. Mesmo quando a doença corrói a matéria e destrói defesas. E de repente, o imprevisível acontece. De repente. Sem que nos lembrássemos da previsibilidade que estava presente a cada dia. 

O Engenheiro António Marques partiu na madrugada de hoje. Quando recebi a mensagem nem queria acreditar. Tínhamos falado pela Páscoa e ontem, desejei lhe um Feliz Aniversário. Jamais imaginei que seria pela última vez. 

Não nos conhecíamos. Nem sequer de vista. E um certo dia, apresentou-se e convidou-me para escrever no jornal «Raio de Luz». Confesso que não dei grande importância ao convite. Esqueci até o assunto. Mas os dias, os meses, foram passando. A amizade e o respeito mútuo foi crescendo. E de repente, perguntou me do nada: «Então? Quando é que começa a escrever para o jornal? Olhe que eu não me esqueci.» E comecei. 

Os anos foram passando. Partilhávamos opiniões, ideias, projectos. Concordávamos em muitas matérias, nomeadamente sobre Sesimbra, sobre o ordenamento do território, sobre os valores culturais, patrimoniais, naturais e ambientais. Indignava-nos algumas situações que ocorriam e que, pelo menos a nós, nos faziam rir, depois de alguns disparates e má-língua saudável.

Direi que a sua última grande indignação terão sido os azulejos da Ermida da Memória no Cabo Espichel e a forma silenciosa que envolve o roubo daquele património insubstituível e de valor incalculável. 

Mas também o indignava o mundo. A guerra no mundo. O Engenheiro António Marques era um homem de paz. Democrata e defensor da liberdade. Respeitador, educado, interessado, preocupado. 

Agradeço-lhe a amizade e a confiança. Agradeço-lhe a partilha de tanto conhecimento acumulado durante a vida. Agradeço-lhe os livros e o convite para escrever um dos prefácios. Agradeço-lhe o convite para escrever no jornal que tanto adorava. Agradeço-lhe o bom humor, a risada, mesmo quando tinha tudo para desanimar e desistir. 

Acredito, quero acreditar, que chegou a um lugar de paz, rodeado de livros e projectos. Talvez nesse lugar existam jornais desejosos de o terem como Director. Até o consigo imaginar a escrever, preocupado com o mundo, com Sesimbra, com o roubo dos azulejos,… mas tranquilo e sorridente, com aquele lacinho vermelho inconfundível. 

Faltou-nos o lavagante. Mas o que ficou, vale mais do que mil lavagantes.




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