NÃO GOSTO DO DIA DA MULHER
A mulher não é uma coisa para ter um dia. A mulher não é um bicho, ou uma planta, ou um objecto, para ter um dia. A mulher não é uma efeméride para ter um dia. A mulher não é sequer, uma minoria, para ter um dia.
A mulher é mulher todos os dias. Esqueçam lá essa ideia de flores e jantares e jantarinhos, num dia que foi esvaziado do seu verdadeiro significado. A mulher não precisa de um dia. A mulher precisa de todos os dias. E todos os dias as mulheres reclamam perante a desigualdade, a discriminação, o desrespeito, o assédio.
Não gosto do dia da mulher. Muito menos nos moldes em que é associado a eventos político/partidários. Como se o dia da mulher fosse uma posição politica ou uma qualquer comemoração partidária. O dia da mulher foi instituído há 49 anos para lembrar as lutas das mulheres por melhores condições de vida, de trabalho e de direito de voto.
Para lembrar as mulheres do povo, operárias e pobres que, contra tudo e contra todos, e sem qualquer apoio masculino, político ou partidário, reclamaram. E que por isso, foram brutalmente reprimidas e muitas, assassinadas.
A primeira vez que o dia da mulher foi assinalado em Portugal fez manchete em vários jornais nacionais. As mulheres foram violentadas e agredidas por (e cito apenas o Diário de Lisboa) “histerismo machista” quando, no Parque Eduardo VII, naquele fim de tarde do dia 13 de Janeiro de 1975, surgiram um grupo de mulheres com cartazes, vestidas de donas de casa, ostentando aventais e revistas pornográficas. Foi um final de dia triste.
Não gosto do dia da mulher. Ninguém celebra as mulheres que lutaram, que sofreram e que morreram. Celebra-se o consumismo e a empatia que, apenas neste dia, invade o mundo moderno. As mulheres podem ser maltratadas, desrespeitadas, violentadas, agredidas, assediadas, discriminadas mas, no dia da mulher, recebem flores e a frase “feliz dia da mulher”.
Não gosto do dia da mulher. Um dia vazio, oco, sem alma, agarrado a discursos politizados.
Não gosto do dia da mulher. É apenas mais um dia de hipotética alegria e festividade, esquecendo o passado e o futuro.
(FONTE DA IMAGEM: amusearte.hypotheses.org)
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