OUTRA VEZ AS OBRAS NO CABO ESPICHEL - SESIMBRA
Ontem, dia 20 de Maio de 2020, o passeio de fim de tarde caminhou, por mero acaso, na direcção do Cabo Espichel. Um dia quente, sem vento (nem sequer uma leve brisa), naquela imensidão de mar, céu e serra, verde e azul a perder de vista. Felizmente ou infelizmente (para mim) tenho uma memória visual, geométrica e quase fotográfica de muitos dos espaços que me rodeiam e que fazem parte da minha vida. E o Cabo Espichel não é excepção.
Como alguns saberão, no livro Pedra Alta três capítulos falam do Cabo Espichel. Da sua grandiosidade, da sua magia, dos seus eixos, das suas intenções, do seu mistério. O livro desvenda um conjunto de simbolismos presentes no conjunto do Santuário e que, facilmente são comprováveis e identificáveis, sendo possível utilizar o livro Pedra Alta como uma espécie de guia para uma visita mais simbólica.
Vem isto a propósito das obras que estão a decorrer no Santuário do Cabo Espichel. E desculpem-me voltar ao mesmo tema mas ontem, fiquei “aparvalhada” com as obras de alteração e ampliação que estão a ser realizadas no recinto da Casa da Água.
E talvez por ter uma memória visual, geométrica e quase fotográfica, foi para lá que o meu olhar se dirigiu. Vamos por partes: o muro que circunda o recinto da Casa da Água tem a sua entrada a poente, exactamente no eixo que se liga ao Cruzeiro e Igreja. É um vão de porta em arco, em que o intradorso e o extradorso são um semicilindro. Quer isto dizer que a forma do vão, em arco, é assumida pela forma da parede que o delimita.
E porque o limite poente e norte do recinto da Casa da Água, resulta numa parede em declive, para que a leitura não fosse perdida, a altura é constante, existindo a norte, os ressaltos que conduzem a parede para a altura certa e que enquadram as conversadeiras existentes imediatamente antes do início da escadaria de acesso à própria da Casa da Água. A poente, é o arco que marca a entrada, sendo que a restante parede acompanha o declive natural do terreno, também ela com os ressaltos de correcção de altura.
O que aconteceu? O cercado a norte subiu cerca de dois metros, anulando a amplitude de céu, de mar, de azul e verde, quebrando a linha do horizonte. O que era um cercado baixo, enquadrado, harmonioso e simples, é agora um cercado liso, alto, enorme, marcante, desproporcional e completamente desenquadrado.
A poente, o arco que marcava a entrada foi completamente anulado, sendo construída acima dele, uma parede recta , quebrando o eixo visual e de ligação ao terreiro e recinto do Santuário.
Quero acreditar que existe uma qualquer evidência histórica que provará que, no século XVIII, aquela seria a imagem das paredes que delimitam o recinto da Casa da Água. Um qualquer registo escrito ou desenhado e até agora desconhecido.
Ou então, que existe uma qualquer justificação técnica. Ou cientifica. Ou até, política. Haverá com toda a certeza uma qualquer justificação.
Dois dados curiosos:
1. Há exactamente 250 anos, D. José I concluía a construção do Aqueduto, da Casa da Água e do recinto murado.
2. Há três anos, exactamente no dia 20 de Maio, foi inaugurada a obra de recuperação da Casa da Água do Cabo Espichel, que restituiu àquele espaço a imagem do século XVIII.
Entre 1770 e 2017, aparentemente nada mudou. Mas de 2017 para 2020, algo aconteceu. Pergunto-me o que diria D. José I sobre esta alteração/ampliação? E os presentes na inauguração de 2017?
Volto a repetir o que disse no post AQUEDUTO DO CABO ESPICHEL - SESIMBRA: Que fique bem claro que não tenho absolutamente nada contra a Recuperação do Santuário do Cabo Espichel. Desde que cada intervenção respeite a imagem global mas também, a memória colectiva. E volto a dizer que esta, é só a minha opinião.
E lanço o mesmo desafio: fotografem o Santuário do Cabo Espichel, como todos conhecemos, com aquela imagem. Para que a nossa memória colectiva possa perdurar nas gerações futuras.
Porque, como é sabido, existem imagens que valem mais do que mil palavras!
FONTE DA primeira IMAGEM: retirada do livro CABO ESPICHEL, EM TERRAS DE UM MUNDO PERDIDO (foto Carlos Sargedas), antes de Maio de 2017
FONTE DA segunda IMAGEM: lifecooler.com, depois de Maio de 2017
restantes imagens pessoais, Maio de 2020
Comentários
Enviar um comentário