BEST OFF ALL TIME
A primeira vez que vi a selecção nacional de futebol ao vivo, foi no Europeu de 2004, naquele jogo épico no Estádio da Luz, entre Portugal e Inglaterra, onde, chegados aos penaltis depois de um empate 2-2, o Ricardo defendeu o penalti de David Beckham, o Rui Costa atirou por cima da barra e, perante o nervosismo de Eusébio, o Ricardo voltou a defender um penalti, sem luvas, marcando de seguida a grande penalidade da vitória.
Portugal tinha uma grande equipa: Rui Costa, Nuno Gomes, Hélder Postiga, Simão Sabrosa, Maniche,… capitaneada pelo então número 7: Luís Figo. Naquela equipa, surgia pela quarta vez (em jogos oficiais) uma jovem promessa do futebol português, vestindo a camisola número17: Cristiano Ronaldo.
Este miúdo madeirense tinha-se estreado a marcar pela selecção (em jogos oficiais) no primeiro jogo do Europeu de 2004 contra a Grécia. E foi este mesmo miúdo madeirense que, no último jogo do Europeu de 2004, também contra a Grécia, chorou. E com ele, Portugal inteiro.
Entre 2004 e hoje, aconteceu o que todos sabemos. Golos, taças, recordes, botas de ouro, bolas de ouro,... Talvez lembrar uma frase quando em 2008, ao receber a sua primeira bola de ouro, Cristiano Ronaldo diz à mãe e às irmãs que “podem largar os fogos”. Ou aquele gesto “calma, eu estou aqui” no had-trick contra a Suécia num jogo de play-off e que garantiu o acesso ao Mundial de 2014. Ou a lesão no joelho (e aquela borboleta que chegou vinda do nada) que o fez sair no jogo da final contra a França no Europeu de 2016. Ou o salto e grito “siiiii” que o mundo inteiro conhece e repete.
A última vez que vi a selecção nacional de futebol ao vivo foi no passado dia 24 de Setembro, no Estádio de Alvalade. Direi que 98% dos adeptos (incluindo os galeses) que encheram o estádio envergavam a camisola 7 de Portugal. Os restantes adeptos, como eu, vestiam uma camisola normal, sem qualquer referência ao futebol ou a um jogador (vi apenas um adepto com a camisola 21).
Há quatro momentos do jogo que merecem destaque. O primeiro: os jogadores galeses e portugueses entraram em campo para aquecer. Ninguém prestava grande atenção. Até ter entrado Cristiano Ronaldo. Nesse aquecimento, Cristiano Ronaldo rematou várias vezes à baliza e marcou alguns golos. E o estádio gritou, aplaudiu e festejou com “siiiii”.
O segundo: durante o jogo, em vários momentos, mais de 50 mil pessoas gritaram, a plenos pulmões, não por Portugal ou pelo País de Gales mas sim por “Cristiano Ronaldo, Cristiano Ronaldo, Cristiano Ronaldo”.
O terceiro: quando Ronaldo marcou um golo (que veio a ser anulado por fora de jogo), o estádio veio a baixo. O quarto: quando Ronaldo foi substituído, e depois da ovação de aplausos e gritos, o estádio ficou em silêncio.
Depois vieram os dias seguintes e a novela que encheu notícias, jornais e revistas. Para a história ficará apenas o registo de que, o ultimo jogo de Cristiano Ronaldo na selecção nacional de futebol foi em Alvalade, contra o País de Gales.
E foi exactamente por isso, por ter pensado que o jogo em Alvalade poderia ser o último de Ronaldo, que fomos ao futebol. Não fomos ver apenas Portugal. Fomos ver o Cristiano Ronaldo. E foi memorável.
Tivemos a oportunidade de durante mais de 20 anos assistir a jogos de futebol épicos com jogadores absolutamente extraordinários. Poderia enumerá-los e com toda a certeza iria esquecer-me de muitos e muitos. Prefiro dizer apenas que um desses jogadores é Cristiano Ronaldo.
Mas tenho de acrescentar que Cristiano Ronaldo não é apenas um dos jogadores absolutamente extraordinários. Cristiano Ronaldo é o melhor de todos os tempos. Assim o disseram os adeptos de todo o mundo quando o elegeram como «BOAT», numa iniciativa dinamizada pela FIFA para eleger o jogador «Best Of All Time».
Da minha parte, fico feliz por ter tido o privilégio de o ver jogar, de o ver voar e marcar golos de cabeça, de o ver marcar livres sempre com o mesmo ritual: quatro passos para trás e um para o lado, de o ver correr na direcção da baliza, driblar e marcar golos, de o ver chorar de emoção e alegria, de o ver chorar de tristeza.
E até de o ver reagir a quente. Quem nunca reagiu a quente quando se sente desconsiderado, desrespeitado? Alguém que conheci repetia várias vezes: “quem não se sente não é filho de boa gente”. Cristiano Ronaldo é acima de tudo, um ser humano. E tem, como todos os seres humanos nas suas profissões, momentos de excelência e momentos menos bons. A diferença entre Cristiano Ronaldo e os restantes seres humanos é o facto de, quando reage a quente na sua profissão, ser esmiuçada até à medula, por tudo e por todos, a reação, a atitude, como se se tratasse de um ser divino e não de um comum mortal como todos os outros.
Cristiano Ronaldo está e estará para sempre na história do futebol mundial. Aquele miúdo madeirense, aquela jovem promessa do futebol português, transformou-se num símbolo mundial, ídolo de milhares e milhares de crianças e jovens espalhados pelo mundo, que cresceram a vê-lo jogar.
Sair da selecção não terá sido uma decisão fácil. Mas porventura terá sido a melhor decisão. Confesso que acreditava num Mundial de 2030, organizado por Portugal, Espanha e Marrocos, e que comemora os 100 anos sobre a realização de um campeonato mundial, com Cristiano Ronaldo. Talvez lá esteja noutro qualquer papel que não o de jogador.
A seleção nacional continuará o seu caminho. Com outros jogadores, com outros nomes, com outro camisola 7. Mas a camisola 7 não mais será a mesma. Porque dentro dela não estará nunca mais Cristiano Ronaldo.









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