NINGUÉM ENTRA NA VILA
Pois é. Depois das tempestades, das ocorrências, das limpezas, das remoções, das partilhas nas redes sociais, dos desabafos,... eis que São Pedro irá fazer raiar o sol para que, pelo menos em Sesimbra, os festejos de Carnaval decorram na maior normalidade, num ambiente folião e de enorme festa. Tudo preparado: bancadas montadas, baias colocadas, programas definidos, palcos, ecrãs gigantes...
Foi até criada uma página dedicada exclusivamente ao Carnaval (LINK) onde se encontra toda a informação (ou quase toda) sobre o Carnaval. Por exemplo, o vaivém da Moagem (gratuito) terá um horário alargadíssimo e, a oferta de transportes públicos será reforçada pela Carris Metropolitana "para dar resposta às necessidades".
A informação que não faz parte da página dedicada exclusivamente ao Carnaval, surge na página oficial da Autarquia. O que é inovador: é criada uma página especifica para o Carnaval mas, a informação relativamente aos cortes de trânsito estão apenas na página da Autarquia (na página dedicada ao Carnaval, no separador «trânsito», surge a palavra "brevemente"; talvez depois do Carnaval as informações de trânsito apareçam).
Continuemos.
Na página da Autarquia surge um texto corrido (de difícil leitura) que apresenta um mapa no fim do texto (LINK). Nesse mapa são identificados 8 parques de estacionamento num total de 1264 lugares de estacionamento. Nesse mesmo texto, surge um LINK a um Edital (igualmente de difícil leitura) referindo que a partir das 7 horas da manhã (e "enquanto decorrer o condicionamento de trânsito") é proibido estacionar (entre outros) no estacionamento de terra batida no topo do Estádio Vila Amália (no domingo, segunda e terça-feira). E de acordo com os cortes de trânsito definidos, será igualmente proibido estacionar (pelo facto dos acessos estarem cortados) nos restantes parques de estacionamento, "enquanto decorrer o condicionamento de trânsito".
Ou seja, quem quiser estacionar no parque de estacionamento de terra batida no topo do Estádio Vila Amália poderá fazê-lo apenas durante 3 horas, entre as 4 e as 7 horas da manhã. Acresce que (diz o edital), o corte de trânsito poderá alagar-se até às 6 da manhã. E se assim for, quem quiser, poderá estacionar neste parque, apenas durante uma hora (entre as 6 e as 7 da manhã), no domingo, segunda e terça.
Nos parques de estacionamento do Estádio e do MiniPreço, será possível estacionar entre as zero e as 13 horas de domingo, segunda e terça. No entanto, irão existir condicionamentos na Av. da Liberdade (sem especificar quais), entre as 9 e as 12 horas e que podem, digo eu, vir a impedir o acesso aos parques.
Nos restantes parques (que o mapa identifica) poderá estacionar no domingo e na terça-feira, entre as 4 da manhã e 13 horas. Na segunda-feira, poderá estacionar entre as 4 da manhã e as 14 horas. Ou seja, nos restantes parques (que o mapa identifica) poderá estacionar no domingo e terça-feira durante 9 horas e, na segunda-feira, durante 10 horas. Isto se o corte de trânsito não for alargado até às 6 da manhã. Porque se assim for, quem quiser, poderá estacionar nestes parques, apenas durante 7 horas (entre as 6 da manhã e as 13 horas no domingo e terça-feira) ou durante 8 horas (entre as 6 da manhã e as 14 horas de segunda-feira).
Significa que, na verdade, não existirão parques de estacionamento disponíveis para estacionar. Ou melhor: os parques existem mas, ninguém conseguirá lá chegar. E para conseguir (excepto no parque de terra batida no topo de estádio que só funcionará uma hora por dia) terá de chegar a Sesimbra até às 13 horas.
Não teria sido mais simples não identificar nenhum dos parques de estacionamento existentes (que criam apenas a ilusão que existirão 1264 lugares de estacionamento prontos para receber as viaturas de quem escolher Sesimbra como destino carnavalesco)? Faz algum sentido identificar os parques de estacionamento e depois criar um conjunto de proibições que são condicionadas por outras proibições e que tornam os parques inacessíveis?
Ainda na página oficial da Autarquia, (no texto corrido de difícil leitura) é referido que no domingo, segunda e terça feira, estarão cortados os acessos à Vila de Sesimbra, entre as 13 e as 19 horas. Nomeadamente a EN 378, a Estrada de Argéis e a Estrada da Assenta.
Mas há mais: é num separador, dentro de um separador, dentro de um outro separador na página oficial da Autarquia (e não sendo fácil de procurar, aqui fica o LINK) que surge um outro Edital que especifica onde irão ser cortados os acessos à Vila de Sesimbra. Atente-se:
A partir das 13 horas (da uma da tarde) de domingo, segunda e terça feira:
- Na EN 378, o trânsito será cortado na «curva da barquinha»
- Na Estrada da Assenta, o trânsito será cortado junto à Estrada do Túnel (que segue para a «Cooperativa» no Zambujal)
- Na Estrada de Argéis, o trânsito será cortado junto à «Marconi».
Ou seja, no domingo, na segunda e na terça-feira, os acessos de trânsito à Vila de Sesimbra estarão cortados durante 6 horas (entre as 13 e as 19 horas). 6 horas durante as quais ninguém poderá entrar na Vila de Sesimbra. E quem quererá entrar na Vila de Sesimbra durante estas 6 horas? Ninguém. Absolutamente ninguém. Neste ninguém entendam-se: munícipes, moradores, comerciantes, profissionais, turistas, curiosos, foliões, famílias, idosos, crianças,... Quem é que raio quererá entrar em Sesimbra (durante 6 horas; ou seja, durante toda a tarde) do próximo domingo, segunda e terça-feira? Ninguém. Absolutamente ninguém.
Imaginemos uma família (pais, avós, netos) que escolhem Sesimbra como destino carnavalesco. Chegados a Santana, descem até à «curva da barquinha» e são obrigados a subir na direcção da rotunda do «D. Sancho». Aí chegados, têm duas hipóteses: estacionar o carro na berma da estrada e ir a pé até à marginal de Sesimbra (são só cerca de 2 km a pé, a descer; sabendo-se que para baixo todos os santos ajudam) ou, virar pela Estrada da Assenta sendo que, chegados à Estrada do Túnel serão obrigados a subir na direcção da «Cooperativa». Ora como todos sabemos, o entroncamento da Estrada do Túnel com a Estrada da Assenta é o mais desafogado e amplo entroncamento do Concelho; de boa visibilidade e acessibilidade, com um piso que está excepcional e com uma inclinação que não dificulta em nada qualquer tipo de manobra (estou a ironizar).
Mas de onde é que saem estas ideias peregrinas? Quem se terá lembrado de enviar um caos de trânsito para a Estrada do Túnel? E que, com as tempestades que assolaram o país, deve estar com as bermas limpíssimas, os taludes firmes e sem qualquer tipo de deslizamentos e, o próprio túnel estará com toda a certeza robusto e sólido. Aliás, nem um grãozinho de areia deve existir naquela via apertadíssima e sem um percurso que permita circular a pé e em segurança. Aqui chegados, o que fará esta família? Provavelmente desistirá de ver o Carnaval de Sesimbra. Mas, se insistir nessa vontade, irá arranjar um espaço qualquer na berma, no talude, na própria estrada, na «Cooperativa» e estaciona o carro. Depois são só cerca de 2 km a pé, sempre a descer (e depois a subir).
Mas imaginemos que esta família, chegada a Santana, decide seguir pela Estrada de Argéis. Chegará à «Marconi» e, das duas uma, ou dá meia volta e vai-se embora ou, consegue estacionar o carro algures, entre uma baia e um talude que caiu. Nem sei que diga.
Talvez perguntar: mas qual era o problema do trânsito estar regulado, no sentido de permitir circular na Vila de Sesimbra? Qual era o problema de assegurar a circulação de trânsito que permitisse largar pessoas, fazer uma descarga, chegar a casa, ir trabalhar?
Qual era o problema de manter um anel de circulação que permitisse a quem entrasse na Vila por Argéis, descer a Rua Amélia Frade, virar na rua Bartolomeu Dias e seguir pela Avenida da Liberdade?
Qual era o problema de manter um anel de circulação que permitisse a quem entrasse na Vila pela Assenta, descer pela Rua de Palames, seguir pela Rua 4 de Maio, descer a Conselheiro Ramada Curto e seguir pelo jardim, na direcção da Av. da Liberdade? Ou, chegando à Cândido dos Reis, cortasse pelo Largo do Monumento das Forças Armadas, subisse pela João de Deus, entrasse na Conselheiro Ramada Curto e subisse para a «Alfarrobeira»?
Qual era o problema de manter um anel de circulação que permitisse a quem entrasse na Vila pela EN 378, descer a Cândido dos Reis e seguir pelo jardim, na direcção da Av. da Liberdade? Ou, descendo a Cândido dos Reis, cortasse pelo Largo do Monumento das Forças Armadas, subisse pela João de Deus, entrasse na Conselheiro Ramada Curto e subisse para a «Alfarrobeira»?
Qual era o problema? O desfile de Carnaval é na Marginal. Porque raio é que o desfile de Carnaval condiciona o acesso à Vila de Sesimbra numa distância superior a 2 km? Durante 6 horas?
Imaginemos agora uma família que não vem para o Carnaval. Vem para ver a sua casa depois das tempestades. Pode passar?
E uma família sesimbrense que viva por exemplo na Azoia? Pode passar para ver o Carnaval? Ou tem de fazer mais de 2 km a pé? Ou se quiser entrar na Vila de Sesimbra, vem almoçar (ou trás uma marmita) para garantir que consegue entrar e estacionar num dos tais 1264 lugares de estacionamento que estarão à sua espera? Ou será que apanha o vaivém? E deixa o carro no Aldi ou no Intermaché ou algures numa berma?
Mas de onde é que saem estas ideias peregrinas? Será que alguém transmitiu por exemplo, à restauração, que a partir das 13 horas, ninguém entra na Vila, no domingo, segunda e terça-feira? E a todos aqueles que irão trabalhar; será que alguém os informou que terão de apanhar o vaivém na Moagem? Ou então, um transporte público que venha de Lisboa ou da estação de Coina?
Esta ideia de condicionar a liberdade de uns a favor da liberdade de outros é completamente inexplicável. Haverá que conjugar a liberdade de todos. Porque se existem muitos foliões, muitos outros não o serão (ou não o poderão ser). E estes outros, na sua liberdade, não condicionam a liberdade dos foliões. Respeitam-na. E compete à Autarquia garantir que, os não foliões (porque não são ou não o podem ser), não ficam condicionados nas suas liberdades mais imediatas (como por exemplo, entrar na Vila de Sesimbra para trabalhar ou para chegar a casa).
Confesso que estou curiosa por ver a próxima reunião de Câmara, onde a vereação terá de ratificar esta decisão do Presidente da Autarquia sem precedentes.
Pode ser que não seja nada. Afinal, é Carnaval e ninguém leva a mal!
FONTE DA IMAGEM: setubalmais.pt








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