Há exactamente um ano, Donald Trump tomava posse (pela segunda vez) como Presidente dos Estados Unidos da América. Há exactamente um ano, Donald Trump avançava pela primeira vez com a ideia de tomar a Gronelândia. Diz Trump que a Gronelândia estará a beira de ser controlada pela China e/ou pela Rússia. E antes que isso aconteça, serão os Estados Unidos a tomar conta daquele território gelado, a bem ou a mal, com ou sem a concordância da Dinamarca (e da Europa). E se há um ano estas declarações pareciam apenas um devaneio do Presidente norte-americano, actualmente são preocupantes. Até porque, os Estados Unidos parecem apostados numa ideia imperialista que pretendem reavivar: dominar outras nações através do controlo político e económico, que visem a exploração e apoderamento de matérias primas (terras raras, petróleo) em benefício próprio, subjugando a nação dominada aos seus desejos e pretensões. E tudo isto acontece, em pleno século XXI, perante a passividade do mundo inteiro porque, os Estados Unidos são os donos do mundo e Donald Trump é o soberano universal: dono da Nato, dono do maior arsenal nuclear do mundo, dono da maior força militar mundial e por isso, pela força bélica que possui, julga-se superior e dominante sobre todas as outras nações do mundo. E mais: sabe que está completamente acima de todas as instituições mundiais sendo (acha ele) intocável, incontrolável e acima de qualquer lei moral ou senso de humanidade. Donald Trump é o novo messias, o profeta da nova ordem mundial. E se para isso tiver de ocupar países, tomar territórios e raptar chefes de estado, em nome de uma América que diz querer “tornar grande outra vez”, nada o impedirá. Em nome, diz ele, de um bem maior: defesa dos direitos humanos e da paz mundial. Aliás, parece ser a conquista da “paz”, a grande ambição de Trump. Não da “paz” como todos a entendemos; da “paz” que é atribuída em forma de Nobel pela academia sueca. Aliás, Trump diz ser merecedor desse prémio; e Maria Corina Machado (a líder da oposição a Nicolás Maduro na Venezuela e que venceu o prémio em 2025) ofereceu ontem a Donald Trump a medalha do Nobel da Paz que recebeu há pouco mais de três meses. Porque, diz ela, Trump é merecedor da mesma; trata-se de reconhecer o “seu compromisso único com a nossa liberdade” (e que, como sabemos, não tem nada a ver com o petróleo venezuelano; absolutamente nada de nada).
Ontem, António Guterres criticou “a ganância sem limites” dos mais ricos, denunciando os líderes que “atropelam o direito internacional”. E mais: afirmou que “vivemos num mundo repleto de conflitos, impunidade, desigualdade e imprevisibilidade. Um mundo marcado por divisões geopolíticas autodestrutivas, violações flagrantes do direito internacional e drásticos cortes na ajuda humanitária e ao desenvolvimento.” São palavras fortes do Secretário-Geral da ONU.
Importa referir que a ONU surgiu em 1945, depois de Hiroshima e Nagasaki (ditando o fim da II Guerra Mundial, com a rendição do Japão). Oppenheimer terá dito que os seres humanos só iriam perceber o grau de destruição de uma arma nuclear, quando vissem efectivamente o grau dessa destruição. E perante esta afirmação, estaria convicto que, depois de presenciarem pelo menos por uma vez, a força destruidora de uma arma nuclear, ficaria para sempre garantida a paz na terra e a continuidade da humanidade.
No entanto, os seres humanos precisaram de ver o grau de destruição, não de uma, mas de duas armas nucleares. E perante essa realidade, firmaram-se diferentes tratados, que impediriam (entre outros) a propagação de armas nucleares noutros países (impedindo-os de desenvolverem essa tecnologia) e, levariam os países (Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França, China) detentores desse tipo de armas a desarmá-las, utilizando essa tecnologia apenas para fins específicos como por exemplo, gerar energia. No entanto (apesar dos 191 países que aderiram ao tratado), India, Paquistão, Israel e Coreia do Norte, têm armas nucleares e não aderiram ao tratado. O Irão faz parte do tratado (ou fazia), não tem armas nucleares mas possui tecnologia nuclear (para “fins pacíficos”) capaz de fabricar uma bomba atómica. Mais: depois do conflito de 12 dias entre o Irão e Israel (com o apoio dos Estados Unidos e que destruiu instalações nucleares no Irão), especula-se que o líder supremo do Irão terá autorizado um projecto que visará a construção de bombas nucleares. E mais: os Estados Unidos saíram do tratado nuclear porque afirmam que a Rússia não respeita os termos do tratado. E como a Rússia não respeita (dizem os Estados Unidos), os Estados Unidos também não têm de o respeitar e por isso, estão livres de qualquer tipo de obrigação estabelecida pelo tratado, nomeadamente, o não fabrico de armas nucleares.
Passaram 80 anos sobre Hiroshima e Nagasaki. E o uso de armas nucleares começa a fazer parte do léxico de vários líderes mundiais. Afirmar, em pleno século XXI, que a utilização de uma bomba nuclear é uma opção, parece garantir uma nova soberania sobre um mundo que, sendo ameaçado, não consegue reagir. Nem diplomaticamente. Porque não há diplomacia que consiga travar homens loucos no poder.
A ONU garantiria para sempre, a paz no mundo e o fim de conflitos armados, promovendo os direitos humanos e estabelecendo um conjunto de normas conhecidas como “direito internacional”. Hipoteticamente, a ONU seria capaz de unir as nações, potenciando o diálogo e a cooperação, garantindo através da diplomacia, o fim de conflitos armados, nomeadamente com o recurso a armas de destruição maciça (armas nucleares). Mas o mundo mudou. E se na base da ONU estiveram Franklin Roosevelt e Winston Churchill; e se no “Tratado Nuclear” estiveram Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev, hoje, em pleno século XXI, o mundo tem Donald Trump e Vladimir Putin. E uma Europa incapaz de lhes fazer frente diplomaticamente. E, perante esta loucura que a rodeia, a Europa discute a paz ao mesmo tempo que aposta no armamento de todos os países europeus para se defenderem desta gente louca que, com uma ambição desmedida, enche os discursos com o possível uso de armas nucleares.
E o que pode fazer a ONU? Quando no seu Conselho de Segurança, cinco países (Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido) têm direito de veto sobre qualquer tipo de resolução que seja proposta? O Conselho de Segurança será, teoricamente, o órgão da ONU responsável por manter a paz e a segurança do mundo e da humanidade. As decisões que toma são obrigatoriamente cumpridas pelos 193 países que constituem a ONU. Mas basta que um dos cinco países com direito de veto exerça esse direito, para que decisões sejam bloqueadas e impeçam a efectiva manutenção da paz e da segurança do mundo e da humanidade. Apenas dois exemplos:
- Na proposta de resolução que visava admitir a Palestina como novo membro da ONU, os Estados Unidos exerceram o seu direito de veto. A Faixa de Gaza será a nova “Riviera do Oriente”, promovida por Israel e pelos Estados Unidos. Até lá, os palestinianos serão dizimados e, os que sobreviverem, serão transferidos para uma zona bem distante, algures no deserto. Tudo em nome dos direitos humanos e da paz no mundo, claro está;
- Na proposta de resolução que visava condenar a invasão da Ucrânia e obrigar à retirada das tropas russas, a Rússia exerceu o seu direito de veto. Ou seja, a Rússia com o seu veto, anulou uma qualquer acção da ONU, promovendo a continuidade de uma guerra que, para a Rússia, visa apenas acabar com o nazismo ucraniano, sendo que a existência de terras raras ou outro tipo de riquezas ucranianas, não tem nada a ver com o assunto.
Que catástrofe humana e mundial terá outra vez de acontecer para o ser humano ver, e perceber, que os valores mais altos do planeta são a paz e a continuidade da humanidade? A ganância, a ambição, a busca de mais riqueza e poder, em nada contribuirão para a imagem histórica destes líderes mundiais. “Make América great again” não passa por aqui. A América será grande outra vez quando voltar a ser um exemplo democrático, humanista e pacifista.
Até lá, resta-nos a ONU, que apesar de condicionada nas suas acções pelo Conselho de Segurança, garante a ajuda humanitária essencial e imprescindível a milhares de milhões de pessoas sem qualquer tipo de direito ou dignidade humana.
E a Europa que, apesar de tudo, tenta fazer um novo caminho que nunca julgou fazer: armar-se até aos dentes perante ameaças que jamais imaginou.
No âmbito do «Instrumento de Acção para a Segurança da Europa», Portugal contará com uma verba de 5,8 milhões de euros (aos quais poderá aceder através de empréstimos) para investir na defesa nacional.
O Orçamento de Estado para 2026 destinou à sua defesa interna e externa, mais de 6,8 milhões de euros, aos quais irá somar 5,8 milhões (em empréstimos). São mais de 12,6 milhões de euros destinados à defesa nacional. Direi que, mais do que uma verba, serão necessárias outras iniciativas que visem em primeiro lugar salvaguardar o respeito pela vida e pelos direitos humanos: no dia em que escrevo, a notícia que invadiu os canais televisivos é relativa a acções de tortura por parte de agentes da PSP sobre imigrantes vulneráveis.
Que mundo é este? Que Europa é esta? Que país é este?
Em Sesimbra, é Carnaval. E as preocupações são outras. Parece que a intervenção desastrosa que foi realizada na marginal nascente de Sesimbra, com a colocação daqueles vasos horrorosos, não permite que duas baianas desfilem e rodem lado a lado. Nem há palavras.
Viva o Carnaval!








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