O QUE TEMOS DENTRO DE NÓS

Todos temos um treinador de futebol dentro de nós. Percebemos todos de futebol e sabemos melhor do que ninguém quem deveria jogar, quem deveria ser substituído, qual deveria ser a estratégia de jogo e há até quem afirme que o treinador A ou B não sabe o que faz.

Pus-me a pensar se este fenómeno ocorreria com outra qualquer profissão... por exemplo, será que todos temos dentro de nós um jardineiro? A principio até diria que sim mas, o jardineiro é que sabe o que faz, sabe quando e onde deve podar, plantar, semear, cortar,… E um cozinheiro? Talvez… mas e fazer uma redução de vinho tinto? E saber os pontos de espadana e de pérola?

E um médico? Um advogado? Um contabilista? Um professor? Um carpinteiro? Um mecânico?

De repente lembrei-me: só conheço uma outra profissão que invade naturalmente todo o ser humano. Sobre esta profissão, todos estamos habilitados a largar sugestões e a fazer juízos sobre isto e sobre aquilo. Todos sem excepção sabemos tudo e temos soluções muito melhores e mais acertadas. 

Pois é, para além de um treinador de futebol, todos nascemos com um arquitecto dentro de nós. 

“O arquitecto pôs-se para aí a inventar” ou “não percebe nada de horta” ou “fez uns bonecos no computador e agora nós é que temos que resolver isto”, são algumas frases porventura familiares a alguns arquitectos que eventualmente possam ler este escrito.

Depois, as opiniões divergem. Por um lado, tudo deveria estar regulamentado e regrado, para que se soubessem as “regras do jogo”. Por outro lado, se tudo estivesse regulamentado e regrado, a liberdade artística perder-se-ia. 

Porque a arquitectura é uma forma de arte. Livre. Libertadora. Agora a parte real: condicionada sempre por um programa, por um cliente, por um orçamento, e por vezes, pela fotografia que saiu numa revista e que resulta numa outra frase: “quero uma casa igual a esta!” E claro, pela Humanidade que tem em si um arquitecto!

Uma das melhores estórias que ouvi nos últimos tempos foi num documentário sobre o arquitecto Pardal Monteiro. Naquela altura, os desenhos eram feitos à mão, a lápis, com régua e esquadro. Um dos seus projectos teria de ser aprovado por Salazar. E foi Duarte Pacheco que numa reunião, levou o rolo dos desenhos de Pardal Monteiro para que fossem aprovados. Salazar pegou numa borracha e num lápis e alterou os desenhos de Pardal Monteiro, dizendo qualquer coisa do género: “isto assim é que fica bem feito, leve lá isso ao arquitecto para ele fazer como deve ser.”

Como um verdadeiro artista, Pardal Monteiro emoldurou os desenhos riscados por Salazar e ofereceu-lhos. Aqueles, já não eram os seus desenhos. Eram riscos, qual pintura cubista, dignos de serem emoldurados. E o artista plástico era Salazar.

Escusado será dizer que Salazar terá ficado furioso. E a consequência imediata: Pardal Monteiro ficou sem trabalho. Durante muito tempo.

Nos dias de hoje a arquitectura é computorizada. E cheia de trims, offsets, inserts, blocks, properties, lines e polylines… de formatos editáveis e não editáveis…

Saudades dos desenhos em papel de esquiço, da máquina de desenho, do papel vegetal e das lâminas, das Rotring e dos decalques… de arquitetar. Sem regras, sem regulamentos. Livremente. Apenas enquanto acto criativo.




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